Análise do Comportamento e Terapia ABA

A sigla ABA refere-se ao termo em inglês Applied Behavior Analysis e pode ser traduzido para o português como Análise do Comportamento Aplicada. A Análise do Comportamento é uma grande ciência e a ABA é a forma de aplicar essa ciência. Existe mais de 50 anos de estudos acumulados de pesquisas no ensino de repertórios para pessoas e crianças com autismo. Usamos então a ABA na intervenção de indivíduos do espectro usando práticas baseadas em evidência científica. Além disso, realizamos coleta de dados e fazemos “ciência” na medida que conseguimos fazer análises do desempenho do nosso paciente, e modificamos o procedimento até acharmos aquele que ele responde melhor, ou seja, aquele que ele pode aprender com mais facilidade.  Na ABA trabalhamos com comportamentos que podem ser observados e modificados. Basicamente, trabalhamos com os eventos antecedentes e consequentes do comportamento na modificação dele. No caso de uma criança que morde outra, por exemplo, podemos avaliar: em quais situações isso ocorre, em quais horários, quais crianças são as principais “vítimas”, qual a reação das crianças e dos adultos que estão naquele ambiente, se ela tem acesso a algum brinquedo após a mordida, enfim, uma série de variáveis podem ser avaliadas e algumas modificadas. A Análise do Comportamento Aplicada ao autismo se popularizou na clínica como Terapia ABA, mas cientificamente, seria mais correto dizer intervenções em ABA (intervenções em Análise do Comportamento Aplicada). Eu, particularmente gosto de usar bastante o Terapia ABA para falar desse tipo de intervenção, até porque esse também é o termo “popularizado” nos Estados Unidos (ABA Therapy) para falar desse tipo de intervenção. As intervenções em ABA podem ser feita de maneira estruturada ou de maneira naturalística, focando nos comportamentos alvo de intervenção, o que em sua maioria envolve comportamentos ligados à linguagem, socialização, autonomia e redução de comportamentos desafiadores como agressividade. Infelizmente no Brasil, esse tipo de terapia ainda está restrito aos grandes centros, a consultorias as distâncias, e também a um grupo pequeno de profissionais. Apesar de existir um crescente aumento de profissionais trabalhando com ABA, nem sempre eles têm a qualificação e experiência necessária para garantir a qualidade do serviço. Na ABA, todo trabalho é feito de forma individualizada e intensiva (entre 10 a 40 hs semanais de atendimento), o que encarece o custo da terapia. Publicado em 21.01.16 e revisado em 29.04.24

Como funciona a Terapia ABA?

Muitas vezes quando digo que trabalho com crianças de dois anos e até menos, o que mais escuto é “Sério? O que dá para fazer com crianças tão pequenas?”. A maioria das pessoas pensa logo em terapias que envolvem conversas entre duas pessoas, o que em muitos casos é a realidade. A Terapia ABA, por sua vez, é uma forma de intervenção que trabalha comportamentos alvo da criança, por exemplo, a imitação, o que não envolve, necessariamente, a fala. Nesse sentido é desenvolvido um programa de intervenção individualizado para ensinar repertórios esperados em bebês, o que não necessariamente envolve a fala. Trabalhamos respostas como olhar no olho, ou para faces humanas, olhar para barriga quando dizemos “cadê a barriga”, entre outros repertórios que a criança tem em déficits. A intervenção em ABA envolve o ensino através de DICAS físicas, visuais, vocais e gestuais, e pela apresentação de itens preferidos pela criança após cada vez que a criança apresenta a resposta a ser ensinada, ou após um grupo de respostas aprendidas. Por exemplo, quando ensinando a imitação “dar tchau” e a criança permanece imóvel, pegamos sua mão e balançamos como se ela estivesse dando tchau (essa é uma dica física total), e apresentamos a consequência da imitação feita por ela, que pode ser brinquedos, desenhos animados, atividades preferidas enfim, itens que a criança mais gosta. A intervenção precoce é aquela com mais resultados descritos na literatura, por isso é tão importante começar cedo a intervenção, quando os primeiros atrasos começam a aparecer. Apesar disso, mesmo de forma tardia, intervenções que crianças maiores, e até jovens e adultos, o ABA pode contribuir muito para o ensino de repertórios funcionais e sociais. O objetivo do ABA independente da idade é aumentar a independência e autonomia do paciente que atendemos. Publicado em 20.12.2009, revisado em 28.04.24

Algumas instruções gerais:

Quando for dar instruções para o seu filho/ aprendiz, se abaixe ao nível dele e peça para ele olhar para você antes de instruí-lo. Muitas vezes, ele nem percebeu que está falando com ele. Quando der uma instrução e seu filho/ aprendiz não acatar, forneça dicas para que ele apresente a resposta. Por exemplo, quando você falar: “senta aqui”, e ele não sentar, direcione fisicamente a criança para uma cadeira. Caso você peça para ele te olhar, você pode colocar algum objeto preferido na frente dele e direcionar o objeto para o seu rosto. Quando seu filho/ aprendiz for agressivo (gritar, bater, morder, jogar tudo ao redor no chão), tente evitar que ele consiga ter sucesso nesses comportamentos. Fique na frente dos objetos, não o deixe morder. Caso ele consiga, se certifique que ele não tenha o brinquedo com o qual ele queria brincar nas mãos (caso seja esse o motivo do comportamento agressivo).. Quando seu filho/ aprendiz tiver que completar alguma atividade, se certifique de que essa atividade seja compatível com sua capacidade de realiza-la sozinho, e forneça caso necessário para garantir que ele completa-la. Quando seu filho/ aprendiz estiver chorando muito, talvez ele esteja querendo algo, ou cansado, com sono, doente, muitas podem ser as opções. É importante que você identifique se existe algum desconforto físico, ou se ele quer alguma coisa específica, mas também que tenha uma resposta mais neutra a esse comportamento dele. Se ele quiser seu colo, espere ele pedir apontando, levantando o braço ou vocalmente. Enquanto ele estiver chorando, o ideal é evitar fazer contato visual e chamar o nome dele. O choro funciona como uma forma de comunicação, por isso, tente substituir (ao máximo) por outros comportamentos: olhar no olho, balbuciar um som, sentar, pedir colo e atenção. Publicado em 16.05.2014 e revisado em 28.04.24

Quais sinais podem identificar autismo em bebês?

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um transtorno do desenvolvimento que compromete duas áreas principais: a interação e comunicação social, e o comportamento e interesse restrito e repetitivo. Esse é um transtorno que envolve uma grande variedade de sintomatologia e não existe nenhuma criança ou adulto com autismo igual a outro. A neurodiversidade é infinita, e por mais que possamos falar de comportamentos comuns ao TEA, eles não se aplicaram a todas as pessoas e crianças do espectro. Um dos primeiros sinais que pode indicar que uma criança está dentro do espectro é o olhar no olho. Ainda bebê é possível perceber se a criança evita olhar no olho da mãe e de outros adultos. Geralmente eles também não apresentam sorriso social. Um médico pode ser consultado para avaliar possíveis causas físicas como, por exemplo, ter algum nível de deficiência visual. E caso seja descartado motivos físicos, o autismo deve ser considerado. Quando uma criança não olha no olho, provavelmente ela também não se atenta às faces humanas, a como os outros falam, se comportam e como expressam emoções. Ela também pode não perceber o que está ocorrendo ao seu redor em relação ao contexto social, e não imitar ou apresentar resposta sociais esperadas. Um dos primeiros passos na intervenção dessa criança é ensiná-la a olhar no olho, com o objetivo de ter mais atenção do bebê para ensinar comportamentos mais complexos como imitação, seguimento de instrução e fala vocal. No entanto, é importante ressaltar que algumas crianças, mesmo com um ensino intenso desse olhar no olho pode não desenvolver esse repertório de forma consistente. Parece que para algumas pessoas/ crianças com autismo, essa resposta de olhar é muito aversiva. Por isso, em alguns casos, essa dificuldade deve ser respeitada, e se pode treinar outras respostas que garantam que a criança está prestando a atenção em você. Por exemplo, quando chamar ela pelo nome, ela direcionar pelo menos o rosto na sua direção. Outro repertório esperado em bebê envolve imitar comportamentos dos adultos como dá tchauzinho, ou bater palminha. Também é esperado que ele siga instruções como “cadê a barriga do neném?” e ele olhe para barriga, ou outro item indicado pelos pais. O ensino desses repertórios básicos são pré-requisitos da fala, só assim, a criança começa a responder socialmente, fazer trocas sociais. Ela começa a se atentar e responder a estímulos sonoros como seguir instruções, imitar sons e comportamentos sociais, o que é fundamental no desenvolvimento da linguagem vocal, e na ampliação da sua interação social. Mesmo sem um diagnóstico formal, o que normalmente ocorre por volta dos dois anos (para crianças com sintomatologia mais evidente e quando ocorre a busca precoce dos pais), é possível criar um programa de intervenção que pode facilitar o desenvolvimento desses bebês, estando eles no espectro ou não. Não demore para procurar ajuda, a intervenção precoce pode aumentar intensivamente o prognóstico de crianças do espectro. Quanto mais tarde uma criança começa a intervenção, maior é a distância dela com um par etário de desenvolvimento típico (sem diagnóstico). Publicado em 18.05.15 e revisado em 03.04.24

Como você pode ensinar a criança a olhar nos seus olhos.

Primeiro, identifique coisas que ela gosta muito: brinquedos, músicas, comidas, cosquinha etc. Utilize esses itens como consequências a resposta de olhar no olho. É importante que ela “perceba” que coisas divertidas acontecem quando ela olha para você. Você pode recompensar esse olhar com itens de preferência. Por exemplo, se ela gosta muito de uma música específica, cante para ela enquanto ela está te olhando, e dê pausas quando ela desviar o olhar. Volte a cantar quando ela olhar novamente. Faça o mesmo com as cosquinhas, e interações físicas (se esse for uma estimulação que ela curte). Sempre que possível, coloque itens perto do seu olho, essa é uma dica por posição que pode ajudar na resposta de olhar para você. Por exemplo, se ela gostar de bolha de sabão coloque o item perto do olho e vai afastando para ela ir apresentando a resposta de maneira independente. A dica por posição é a mais recomendada nesse tipo de treino. Pareei o olhar com acesso a itens e atividades de preferência. Ou seja, não só forneça os itens depois que ela te olhar, entregue junto com instruções como “olha para mim”, ou o próprio nome da criança. O importante é que as situações de olhar no olho lembrem momentos agradáveis e reforçadores. Não use dicas físicas, pegar no rosto da criança, por exemplo, pode ser extremante aversivo. Por último, pare da falar o nome dela, ou pedir para ele te olhar o tempo todo. Se ficar fazendo isso sua instrução pode virar um chiado que não significa nada para ela. Só faça isso quando tiver planejado acesso a reforçadores. Isso irá fortalecer esse repertório. Em outros momentos use apelidos como “amor”, querido”, “lindo, “príncipe” etc. Algumas crianças e pessoas com autismo, mesmo com treino e pareamento intensos de situações agradáveis como o olhar no olho, podem não ter essa resposta fortalecida (parece ser muito aversivo para alguns indivíduos). Nesse caso, respeite a individualidade dessa criança e pessoa, e adapte novas formas de garantir que ela está prestando atenção em você. Por exemplo, ela pode só direcionar a cabeça na sua direção, mas não olhar no olho exatamente, quando chamar ela pelo nome ou após instruções pedindo atenção. Aceitar dificuldades e peculiaridades de cada pessoa é fundamental para termos uma sociedade mais inclusiva. Publicado em 18.05.15 e revisado em 03.04.24

Agressividade e autismo: O que devo fazer?

Respostas agressivas e desafiadoras como machucar o outro, arremessar e quebrar objetos, e apresentar resposta de auto agressão são comum quando falamos de pessoas dentro do espectro. Como eles tem dificuldade em se comunicar e demostrar emoções, podem ter esses comportamentos como forma de comunicação, expressão das emoções e autoestimulação. Normalmente a forma de comunicação acontece em três momentos: (1) quando eles querem algum item, atividade, brinquedo, alimento; (2) quando eles precisam de atenção, e (3) quando eles querem fugir de alguma situação ou tarefa aversiva. Apesar de essas serem as situações mais comuns, também é possível identificar comportamentos agressivos em outros momentos: algumas crianças expressam sua felicidade através da mordida, por exemplo. Outras se beliscam ou abrem as feridas pela própria sensação produzida pelo beliscão e retirada da casquinha. E ai surge a 4 função desses comportamentos que é a autoestimulação (prazer ou alívio que sentem com o comportamento em questão). A primeira coisa que deve ser feita para lidar com respostas agressivas de crianças do espectro é dificultar o sucesso do comportamento agressivo delas. Sendo assim, nos primeiros sinais de que você vai receber um tapa ou uma mordida, ou que a criança vai se machucar, segure as mãos dela, boqueei a resposta e/ou se afaste. Também utilize estratégias antecedentes (prática baseada em evidência) para reduzir a chance dela apresentar esse tipo de resposta (possibilite escolhas, forneça suportes visuais como timer, rotinas visuais, diminua a dificuldade das tarefas etc). Depois que ele morder/ bater será mais difícil controlar as consequências do comportamento desafiador. Normalmente, o que deve ser feito quando a criança demonstrar os primeiros sinais de agressividade é solicitar comportamentos alternativos de pedido para substituir a tentativa de mordida ou tapa. Por exemplo, quando a criança tentar te morder, e ela for vocal, peça para ela dizer o que ela quer vocalmente (peça para ela repetir palavra por palavra o que você falar, dando o modelo do pedido adequado por intervalo, por exemplo). Se ela não for verbal, peça para ela apontar, sinalizar, ou mostrar o que quer usando o sistema de comunicação alternativa. Quando ela tentar morder expressando felicidade, dê dicas físicas de como deveria se comportar, faça a criança bater palmas, por exemplo. É importante que outro comportamento possa ser ensinado.  Quando ele conseguir bater, morder, arranhar, você deve evitar fazer contato visual com ele por alguns segundos, e modelar respostas de pedidos adequados. Apesar de crianças do espectro evitarem o contato visual, paradoxalmente nessas horas eles tendem a te olhar. Evitar o contato visual seria um primeiro sinal para a criança de que ela não foi bem-sucedida para conseguir sua atenção. Modele a resposta de pedir para olharem para ela, ou brincarem com ela. Se a criança quiser um brinquedo, direcione para que ela peça de forma funcional quando for possível. Se ela quiser que você se afaste, modele a resposta dela de pedir para você se afastar. Se você não puder atender o pedido dela, tente mudar o foco da situação e direcione para novos contextos (ambientes) e atividades. Na prática clínica, já levei mordidas, puxões de cabelo, beliscões na bochecha, tapa na cara, arranhões, cabeçadas etc. Apesar de tentar ser indiferente aos comportamentos deles, muitas vezes, sentimentos como decepção e frustração são inevitáveis. Imagino que esse seja também o sentimento dos pais e terapeutas quando isso acontece, e por isso, esse seja um dos comportamentos mais difíceis de serem trabalhados por eles. Mesmo assim, é importante não desanimar e insistir no ensino de comportamentos mais adequados e na ampliação da comunicação deles.  Publicado 20.05.14 e revisado em 03.04.24

Meu filho vai falar? Como posso ajudar?

Quando a criança completa dois anos e não fala, alguns pais começam a se preocupar e a procurar ajuda especializada para ensinar a criança a falar. Em muitos casos, é nesse momento que os pais se deparam com o diagnóstico ou a hipótese diagnóstica do autismo. Já ouvi muitas mães de crianças do espectro perguntando “meu filho vai falar?”. Percebo que essa é uma questão que traz muita ansiedade às famílias. Nem sempre uma resposta objetiva pode ser dada. Cada criança se desenvolve de maneira diferente. Apesar de entender a ansiedade dos pais, acredito que a pergunta deveria ser “Como ele vai falar?”. A linguagem vocal é apenas uma forma de comunicação, outras formas podem funcionar como um meio da criança se fazer entender.  COMO POSSO AJUDAR? Primeiro, o ensine a imitar. Se a criança não tiver imitação, muito provavelmente ela não conseguirá repetir sons, muito menos falar. Às vezes, será necessário ensinar comportamentos ainda mais básicos como olhar no olho, ficar parado, seguir instruções etc. Cada comportamento que quiser ensinar deve ser valorizado e reforçado. Por exemplo, se ela olhou para você, cante músicas ou dê seu brinquedo favorito. Quando for ensinar a imitar, peça para ela te olhar, bata palmas, e dê uma instrução simples como “faça igual”. Muito provavelmente ela vai ficar imóvel nas primeiras vezes, então pegue a mão dele e bata palma por ele, depois entregue o item favorito. Você vai perceber que depois de reduzir gradualmente a dica para dica física parcial, ela vai bater palma por si mesma. As dicas físicas são muito eficazes, quando combinadas com a recompensa no final. Incentive a vocalização. Se a criança não emitir som nenhum, recompense-a toda vez que ela balbuciar algo, por mais simples que seja o som. Quando ela começar a balbuciar sons simples, passe a recompensar apenas sons mais complexos. Como ela balbuciar sons mais complexos, recompense apenas quando ela repetir sons que você falar, o som “A”, por exemplo. Finalmente quando ela estiver repetindo sons, recompense apenas quando ela repetir palavras. Toda vez que ela quiser algo, aponte para sua boca, fale o nome do item e espere ele repita o nome do objeto ou item preferido. Ensine ele a apontar objetos, quando falar o nome deles. Assim ela irá relacionar objetos a sons e você poderá conhecer o nível de compreensão do seu filho. Têm crianças que não falam uma palavra, mas tem a compreensão bem apurada, e apontam quase tudo o que pedem para elas. Ensine meios alternativos de Comunicação. Mesmo incentivando a vocalização da criança, é importante que ela não fique sem um meio adequado de comunicação. Por isso, ensine-a a dizer sim e não, através de gestos de cabeça (ensine primeiro a imitação). Imprima imagens de coisas que ela goste e peça para ele apontar uma dessas coisas quando perceber que ela quer algo. A linguagem de sinais e sistemas de comunicação alternativa como o PECS (Picture Exchange Communicative System) e aplicativos de tablet podem ser ferramentas interessantes para facilitar a comunicação. Esse tipo de ferramenta possibilita a comunicação dessas crianças, e possibilitam, a diminuição de comportamentos inadequados de birra e choro que eles apresentam quando precisam se comunicar. O sistema de comunicação alternativa também funciona para ampliar a fala vocal de criança falantes, porque treina a construção de frases. Publicado em 25.05.14 e revisado em 03.04.24

Não seja agressivo, nem use ameaça!

Sempre fui contra a agressão física de crianças. Fico chocada toda vez que presencio, inclusive uma ameaça. Já ouvi um pai de uma criança típica dizer “vou te bater até sangrar”. Nesse momento, duas coisas passaram na minha cabeça: uma tragédia, ou uma ameaça sem caráter de realidade, que nunca será realizada pelo pai e que só aumentará os comportamentos inadequados da criança. “Nunca faça uma ameaça que não possa cumprir”, todo mundo já ouviu esse conselho, mas é impressionante como os pais ainda utilizam ameaças irreais para manter seus filhos “comportados”. O que acontece se você ameaçar seu filho, ele não obedecer e você não puder cumprir sua ameaça? Simplesmente, suas ameaças vão virar uma piada. A criança vai se engajar em comportamentos ainda mais inadequados e saberá que nada lhe acontecerá. Um lado positivo das ameaças não cumpridas é que elas podem indicar um desconforto por parte dos pais em serem agressivos, e isso é positivo! Por que não pensar, então, em estipular regras mais reais (não que essa seja a única forma de ensinar, nem a mais eficiente)!? Dê regras do tipo “se você não obedecer à mamãe, vou ter que guardar o seu carrinho”. Pense também em estipular tempos reais, um dia, algumas horas… Não vai adiantar dizer para a criança que ela não terá o carrinho para sempre, se você for dar o objeto depois de 5 minutos. Seja claro, objetivo e consistente com as regras dadas ao seu filho. Estipular regras, no entanto, só é eficaz quando você lida com uma criança verbal que tenha nível avançado de compreensão. Além disso, a ameaça mesmo como regras, descrevendo comportamento e consequências, podem causar efeitos colaterais ruins como estresse e medo. Por isso tente usar o mínimo possível. Prefira sempre reforçar respostas adequadas e desejáveis e reduzir atenção a respostas que quer reduzir de frequência. Por último, nunca use a agressão física para “educar” seu filho.  Tecnicamente, a agressão física: (1) é um modelo inadequado para solução de problemas, a criança pode se tornar agressiva e entender que esta é melhor maneira de impor sua vontade; (2) está relacionada a um descontrole dos pais, pois acontecem em momentos extremos de estresse e frustração por parte deles (e indica falta de repertório para lidar com as próprias emoções); (3) tem efeitos colaterais e emocionais, a criança pode se tornar reativa, raivosa, chorosa, com sentimentos de inferioridade, etc; (4) pode desenvolver comportamentos diferentes dependendo da presença ou não do agressor, por exemplo, se a criança morde outra e é punida pelo pai na mesma hora, quando o pai não estiver presente ela “saberá” que está livre para morder quem quiser; (5) produz confusão para a criança em relação ao que ela fez de errado, especialmente quando ocorre muito tempo depois do comportamento alvo. Seja firme e consistente com tudo que falar para o seu filho, assim ele saberá que pode confiar no que você fala! Como muitos adultos vivenciaram a palmada como algo comum na sua infância, imagino que eles apenas conhecem essa forma de educação. No entanto, você não precisa perpetuar uma prática que vai diminuir a autoestima do seu filho. Publicado em 29.05.14 e revisado em 03.04.24

Não diga “NÃO” para o seu filho!

Parece um conselho estranho, mas é recomendado que você não grite “não faça isso”, “não faça aquilo” para seu filho, sendo ele do espectro autista ou não. Se você tiver um criança com grande fluência verbal fale “não” em tom baixo, com voz firme e olhando nos olhos dele. Quanto menos o ambiente mudar quando seu filho for inadequado, maior a probabilidade dele não repetir aquele comportamento.  É comum que crianças do espectro, por exemplo, entendam a atenção e o grito como uma brincadeira, deem risada e corram. Todo mundo sabe que criança gosta de atenção, com crianças do espectro é a mesma coisa, o que acontece é que elas disfarçam melhor o interesse delas. Quando você grita, a criança pode identificar que com esse comportamento ela ganha sua atenção e pode repetir esse comportamento toda vez que ela quiser que você “olhe” para ela. O que devo fazer então? O recomendável é dizer o que ela deve fazer. Ou seja, se ela coloca um objeto na boca, ao invés de dizer “não coloque na boca”, proponha algo e diga “vamos colocar esse objeto dentro dessa caixa?” (colocar objeto na caixa é incompatível com coloca-lo na boca). Se ela subir em uma mesa, você pode pedir para ela descer para brincar com o carrinho no chão. Se ela arremessar brinquedos, você pode pedir para pintar um desenho etc. O importante é mudar o foco da atenção, direcionando a criança para outras atividades. Não deixe ela ociosa, esse é um contexto comum para comportamentos problema aparecerem. Publicado em 01.06.14 e revisado em 03.04.24

Seu filho está dando trabalho para comer?

Não é muito difícil encontrar crianças que dão trabalho para comer, no caso de crianças e pessoas com autismo o problema é ainda mais constante. Isso porque pessoas do espectro costumam apresentar seletividade alimentar, ou seja, possuem alimentação restrita como reflexo das suas disfunções sensoriais. Tem criança que só come alimentos com determinadas texturas, por exemplo, alimentados amassados ou líquidos, alimentos crocantes, alimentos duros, macios etc. Não é incomum que indivíduos do espectro comam 2 a 5 alimentos e rejeite todos os outros. Pesquisas mostram que se pode aumentar a adesão e preferência por alguns alimentos menos preferidos dessas pessoas, apresentando junto com alimentos de alta preferência. Por exemplo, a criança gosta de carne, mas não gosta de arroz e feijão, então, você pode dar a carne junto com esses alimentos, ou após a ingestão deles. Conheço criança que quando você dá apenas o arroz e o feijão ela cospe, mas quando vem com um pedaço de carne ela come e inclusive checa antes de colocar na boca se tem um pedaço de carne. É importante que você descubra quais alimentos seu filho rejeita mais, e substitua quando for possível. Por exemplo, a criança não gosta de arroz integral e você pode substituir por arroz branco, faça essa troca, para que o momento da alimentação não se torne uma batalha, e sim um momento agradável. Outras vezes, precisará criar estratégias de começar a apresentar junto com alimentos preferidos, em porções muitos pequenas e ir gradualmente aumentando, enfim, incorporar estratégias para ampliar o consumo de alimentos. Também não é incomum, que crianças tome apenas leite, mesmo está não ser mais a recomendação médica pela idade do paciente. Já vi crianças tomando em mamadeiras sopas, sucos, leito (só comia pela mamadeira). Incorporar a apresentação de novos alimentos, e de aproximações sucessivas pode ajudar muito na ampliação desse repertório. Deixar a criança brincar com a comida, só encostar na boca e assim por diante. Comer com seu filho e dá modelos de alimentação saudável também pode ajudar. Mais uma dica é não transforme o momento da alimentação em algo aversivo e desagradável para a criança. Não force ela comer (nem grite), quanto mais alimentação for associada a momentos ruins, mais a criança não vai querer comer. Seja positiva, toda vez que a criança comer valorize esse comportamento, festeje e dê atenção a ela. A restrição alimentar pode se tornar um problema grave de saúde. Pode causar doença por falta de vitaminas. Também pode ampliar a dificuldade de fala. Busque nutricionistas, fonoaudiólogos e analistas do comportamento para te ajudar a ampliar a dieta do seu filho. Publicado em 08.07.14 e revisado em 03.04.24