Como funciona a Terapia ABA?

Muitas vezes quando digo que trabalho com crianças de dois anos e até menos, o que mais escuto é “Sério? O que dá para fazer com crianças tão pequenas?”. A maioria das pessoas pensa logo em terapias que envolvem conversas entre duas pessoas, o que em muitos casos é a realidade. A Terapia ABA, por sua vez, é uma forma de intervenção que trabalha comportamentos alvo da criança, por exemplo, a imitação, o que não envolve, necessariamente, a fala. Nesse sentido é desenvolvido um programa de intervenção individualizado para ensinar repertórios esperados em bebês, o que não necessariamente envolve a fala. Trabalhamos respostas como olhar no olho, ou para faces humanas, olhar para barriga quando dizemos “cadê a barriga”, entre outros repertórios que a criança tem em déficits. A intervenção em ABA envolve o ensino através de DICAS físicas, visuais, vocais e gestuais, e pela apresentação de itens preferidos pela criança após cada vez que a criança apresenta a resposta a ser ensinada, ou após um grupo de respostas aprendidas. Por exemplo, quando ensinando a imitação “dar tchau” e a criança permanece imóvel, pegamos sua mão e balançamos como se ela estivesse dando tchau (essa é uma dica física total), e apresentamos a consequência da imitação feita por ela, que pode ser brinquedos, desenhos animados, atividades preferidas enfim, itens que a criança mais gosta. A intervenção precoce é aquela com mais resultados descritos na literatura, por isso é tão importante começar cedo a intervenção, quando os primeiros atrasos começam a aparecer. Apesar disso, mesmo de forma tardia, intervenções que crianças maiores, e até jovens e adultos, o ABA pode contribuir muito para o ensino de repertórios funcionais e sociais. O objetivo do ABA independente da idade é aumentar a independência e autonomia do paciente que atendemos. Publicado em 20.12.2009, revisado em 28.04.24
Quais sinais podem identificar autismo em bebês?

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um transtorno do desenvolvimento que compromete duas áreas principais: a interação e comunicação social, e o comportamento e interesse restrito e repetitivo. Esse é um transtorno que envolve uma grande variedade de sintomatologia e não existe nenhuma criança ou adulto com autismo igual a outro. A neurodiversidade é infinita, e por mais que possamos falar de comportamentos comuns ao TEA, eles não se aplicaram a todas as pessoas e crianças do espectro. Um dos primeiros sinais que pode indicar que uma criança está dentro do espectro é o olhar no olho. Ainda bebê é possível perceber se a criança evita olhar no olho da mãe e de outros adultos. Geralmente eles também não apresentam sorriso social. Um médico pode ser consultado para avaliar possíveis causas físicas como, por exemplo, ter algum nível de deficiência visual. E caso seja descartado motivos físicos, o autismo deve ser considerado. Quando uma criança não olha no olho, provavelmente ela também não se atenta às faces humanas, a como os outros falam, se comportam e como expressam emoções. Ela também pode não perceber o que está ocorrendo ao seu redor em relação ao contexto social, e não imitar ou apresentar resposta sociais esperadas. Um dos primeiros passos na intervenção dessa criança é ensiná-la a olhar no olho, com o objetivo de ter mais atenção do bebê para ensinar comportamentos mais complexos como imitação, seguimento de instrução e fala vocal. No entanto, é importante ressaltar que algumas crianças, mesmo com um ensino intenso desse olhar no olho pode não desenvolver esse repertório de forma consistente. Parece que para algumas pessoas/ crianças com autismo, essa resposta de olhar é muito aversiva. Por isso, em alguns casos, essa dificuldade deve ser respeitada, e se pode treinar outras respostas que garantam que a criança está prestando a atenção em você. Por exemplo, quando chamar ela pelo nome, ela direcionar pelo menos o rosto na sua direção. Outro repertório esperado em bebê envolve imitar comportamentos dos adultos como dá tchauzinho, ou bater palminha. Também é esperado que ele siga instruções como “cadê a barriga do neném?” e ele olhe para barriga, ou outro item indicado pelos pais. O ensino desses repertórios básicos são pré-requisitos da fala, só assim, a criança começa a responder socialmente, fazer trocas sociais. Ela começa a se atentar e responder a estímulos sonoros como seguir instruções, imitar sons e comportamentos sociais, o que é fundamental no desenvolvimento da linguagem vocal, e na ampliação da sua interação social. Mesmo sem um diagnóstico formal, o que normalmente ocorre por volta dos dois anos (para crianças com sintomatologia mais evidente e quando ocorre a busca precoce dos pais), é possível criar um programa de intervenção que pode facilitar o desenvolvimento desses bebês, estando eles no espectro ou não. Não demore para procurar ajuda, a intervenção precoce pode aumentar intensivamente o prognóstico de crianças do espectro. Quanto mais tarde uma criança começa a intervenção, maior é a distância dela com um par etário de desenvolvimento típico (sem diagnóstico). Publicado em 18.05.15 e revisado em 03.04.24
Meu filho vai falar? Como posso ajudar?

Quando a criança completa dois anos e não fala, alguns pais começam a se preocupar e a procurar ajuda especializada para ensinar a criança a falar. Em muitos casos, é nesse momento que os pais se deparam com o diagnóstico ou a hipótese diagnóstica do autismo. Já ouvi muitas mães de crianças do espectro perguntando “meu filho vai falar?”. Percebo que essa é uma questão que traz muita ansiedade às famílias. Nem sempre uma resposta objetiva pode ser dada. Cada criança se desenvolve de maneira diferente. Apesar de entender a ansiedade dos pais, acredito que a pergunta deveria ser “Como ele vai falar?”. A linguagem vocal é apenas uma forma de comunicação, outras formas podem funcionar como um meio da criança se fazer entender. COMO POSSO AJUDAR? Primeiro, o ensine a imitar. Se a criança não tiver imitação, muito provavelmente ela não conseguirá repetir sons, muito menos falar. Às vezes, será necessário ensinar comportamentos ainda mais básicos como olhar no olho, ficar parado, seguir instruções etc. Cada comportamento que quiser ensinar deve ser valorizado e reforçado. Por exemplo, se ela olhou para você, cante músicas ou dê seu brinquedo favorito. Quando for ensinar a imitar, peça para ela te olhar, bata palmas, e dê uma instrução simples como “faça igual”. Muito provavelmente ela vai ficar imóvel nas primeiras vezes, então pegue a mão dele e bata palma por ele, depois entregue o item favorito. Você vai perceber que depois de reduzir gradualmente a dica para dica física parcial, ela vai bater palma por si mesma. As dicas físicas são muito eficazes, quando combinadas com a recompensa no final. Incentive a vocalização. Se a criança não emitir som nenhum, recompense-a toda vez que ela balbuciar algo, por mais simples que seja o som. Quando ela começar a balbuciar sons simples, passe a recompensar apenas sons mais complexos. Como ela balbuciar sons mais complexos, recompense apenas quando ela repetir sons que você falar, o som “A”, por exemplo. Finalmente quando ela estiver repetindo sons, recompense apenas quando ela repetir palavras. Toda vez que ela quiser algo, aponte para sua boca, fale o nome do item e espere ele repita o nome do objeto ou item preferido. Ensine ele a apontar objetos, quando falar o nome deles. Assim ela irá relacionar objetos a sons e você poderá conhecer o nível de compreensão do seu filho. Têm crianças que não falam uma palavra, mas tem a compreensão bem apurada, e apontam quase tudo o que pedem para elas. Ensine meios alternativos de Comunicação. Mesmo incentivando a vocalização da criança, é importante que ela não fique sem um meio adequado de comunicação. Por isso, ensine-a a dizer sim e não, através de gestos de cabeça (ensine primeiro a imitação). Imprima imagens de coisas que ela goste e peça para ele apontar uma dessas coisas quando perceber que ela quer algo. A linguagem de sinais e sistemas de comunicação alternativa como o PECS (Picture Exchange Communicative System) e aplicativos de tablet podem ser ferramentas interessantes para facilitar a comunicação. Esse tipo de ferramenta possibilita a comunicação dessas crianças, e possibilitam, a diminuição de comportamentos inadequados de birra e choro que eles apresentam quando precisam se comunicar. O sistema de comunicação alternativa também funciona para ampliar a fala vocal de criança falantes, porque treina a construção de frases. Publicado em 25.05.14 e revisado em 03.04.24
A Terapia ABA deixa a criança robotizada!?

Algumas pessoas me questionam acerca da rigidez das respostas de indivíduos do espectro. Algumas chegam a sugerir que a Terapia ABA deixa a criança robotizada. Essa ideia de “robotização”, no entanto, é apenas o reflexo de uma dificuldade em generalizar o que é aprendido, característica comum em quadros de autismo. Algumas crianças possuem maior capacidade de generalizar o que foi aprendido, ou seja, utilizar as novas habilidades e aprendizados em novos ambientes, com diferentes pessoas, respostas e estímulos. Outras só apresentam a resposta no contexto ensinado, e para tarefas treinadas. De modo geral, é esperado que a criança consiga generalizar uma classe de respostas, depois que ensinamos a resposta com um grupo de estímulos. Por exemplo, quando você ensina imitação como mandar beijo, dar tchau, bater palma etc, depois de um tempo é esperado que a criança desenvolva a imitação generalizada, ou seja, após o ensino direto de 10 ações, a criança busque imitar qualquer movimento apresentado. Além dos movimentos não treinados, é possível também observar a o aumento de imitações sonoras, o que é fundamental para desenvolvimento da fala vocal. A generalização também precisa ocorrer em relação a pessoas, ambientes e estímulos. A criança deve responder a demanda dos pais, professores, avôs, e não apenas do terapeuta. O aprendizado treinado em contexto estruturado deve ser reproduzido também em outros ambientes e situações como escola, shopping, mercado, sala, cozinha, pátio etc. O ensino da nomeação de fotos de pessoas felizes, por exemplo, deve ser ampliado para apresentação da mesma nomeação para resposta de felicidade de pessoas reais, em filmes, novas fotos etc (criança deve ser capaz de responder a estímulos similares com mesma resposta). A ideia de que a criança vai decorar as respostas é apenas mais um mito em relação a Terapia ABA. Além das características da criança (cada uma vai responder diferente a terapia), e da forma como ela vai aprender a generalizar fará toda a diferença na resposta dela. É desejável que em toda intervenção em ABA, o treino da generalização esteja incorporado nos programas de ensino, o que vai ajudar na apresentação de respostas mais “naturais”, e menos decoradas. Publicado em 13.05.20 e revisado em 03.04.24